“O abolicionismo penal é uma anti-doutrina.
Nós, procedentes de práticas políticas diversas, pretendemos abolir a moral do
castigo e da recompensa, que começa em nós e acaba nas prisões, nas
internações, no controle fechado ou a céu aberto. Lidamos com
situações-problemas e não com crimes, com pessoas e não procedimentos, com
acasos, tragédias e desassossegos em busca de uma solução anti-autoritária,
anti-penalizadora.
O abolicionismo penal libertário, vem do
século XIX com as reflexões de Max Stirner expostas com clareza e precisão em
seu livro, O único e a sua propriedade, e de um outro precioso
estudo sobre os efeitos da punição no final do século XVIII, elaborado por
William Godwin, chamado Da justiça política. Como você pode notar,
o abolicionismo penal é simultâneo ao discurso punitivo da penalização moderna;
não é seu outro lado nem deve ficar reduzido a uma consoladora utopia, mas é um
fluxo incessante que problematiza a moral do castigo e propicia liberações.
Tomou grande impulso depois de 68, obviamente, e aí entra a
marcante contribuição de Louk Hulsman.
Vivemos um presente no qual proliferam os
conservadores, independente de sua procedência social; que acreditam na
restauração da família monogâmica, na pletora de direitos de minorias
confinando os indivíduos em grupos, na caridade e na filantropia, hoje em dia
ongueira, no indivíduo como capital humano, na democracia representativa e
participativa como realidade e utopia, na verdade das mídias e, principalmente,
na punição. Vivemos uma era habitada pelo conservadorismo moderado que combina
encarceramentos com controle a céu aberto por meio de práticas e leis que punem
mais e com flexibilidades.
Ora, se a prisão é um fracasso, acabem com
ela! Mas esses senhores e suas senhoras querem somente reformas e reformas para
deixar o sistema inalterado.
Uma análise sobre as prisões na atualidade,
numa perspectiva abolicionista, acaba constatando que as prisões se tornaram
empresas-estado, cessando o que elas expressavam de vida, as rebeliões e as
insurgências. Os prisioneiros e seus familiares e a burocracia e não sei
quantos mais estão enredados nesta nova institucionalidade carcerária. Do lado
de fora, cresce a crença nos BOPEs e em seus derivados; por dentro aumenta a
lucratividade, a repressão, o assujeitamento. Uma sociedade punitiva e
capitalista precisa de lucro, corpos disponíveis, gente recrutada nas próprias
classes suspeitas para policiar e matar. Há no Brasil hoje em
dia o desejo fascista de matar atravessando todos, eu disse todos, segmentos
sociais. Mas até quando ela precisará de prisões? Será que essa moralidade
que sustenta, ao mesmo tempo, a prisão e o tráfico não está na hora de ser
arruinada?
O abolicionismo penal é o isso e aquilo de
todos nós que apreciamos a liberdade e o fim das desigualdades
sócio-econômicas. Não sou utópico, sou heterotópico. Nós do Nu-Sol queremos
acabar com a internação já!” 1
“O abolicionista penal é aquele que começa abolindo o castigo dentro de si. Inventa uma linguagem, um estilo de vida, em que, mesmo não se apartando das utopias, atua no presente de maneira heterotópica. Não deixa para o futuro o que é preciso fazer agora.” 2
1.Trechos extraídos e adaptados de entrevista publicada em: http://www.nu-sol.org.
2. Trecho extraído da apresentação do Curso Livre de Abolicionismo Penal.

